Apresentação de A Honra Perdida do Trabalho

Apresentação de A Honra Perdida do Trabalho

Robert Kurz, falecido em 2012, foi um dos mais profícuos autores que, no final do século XX e início do século XXI, se dedicaram ao estudo da obra de Marx, nomeadamente da sua crítica da economia política. Deixou publicados inúmeros livros e ensaios, primeiro a partir do grupo (e da revista com o mesmo nome) Krisis e, mais tarde, em torno da revista EXIT!, desenvolvendo um corrente de pensamento que veio a ficar conhecida como crítica do valor (a que mais tarde se acrescentou a noção de dissociação sexual). Ainda que alguns dos seus escritos estejam publicados em língua portuguesa no Brasil, em Portugal o seu trabalho está muito pouco publicado. Saiu agora um dos seus primeiros ensaios de fundo, escrito em 1989 e publicado originalmente em 1991, intitulado «A Honra Perdida do Trabalho». Convidámos, por isso, Bruno Lamas (BL), autor do prefácio a esta edição e estudioso e profundo conhecedor da obra de Kurz, para uma apresentação do livro.

Depois de uma breve digressão sobre o percurso de Kurz, BL sublinhou que este ensaio havia sido escrito numa fase inicial da sua elaboração teórica, num período que coincidia com as profundas transformações que se deram no Leste europeu. Trata-se, como o próprio Kurz afirma, de um texto de auto-entendimento, ou seja, um esforço de sistematização, para si próprio, de um conjunto de ideias. Um ponto de partida é uma divergência profunda com o marxismo tradicional no que respeita ao entendimento da categoria trabalho. Antes de mais pela noção da especificidade histórica do trabalho, por oposição a uma visão transhistórica do trabalho enquanto categoria que, nas leituras tradicionais de Marx, era identificado com a relação produtiva que todas as sociedades estabelecem com a natureza. Mas também por uma recuperação da perspectiva de Marx do sistema capitalista como uma totalidade cuja superação supõe, necessariamente, a crítica radical das suas categorias fundamentais – incluindo, obviamente, a categoria trabalho. Essa visão de Marx – de que se deduz uma lógica de colapso do sistema capitalista pelo desenvolvimento das contradições fundamentais – foi, para Kurz, profundamente desprezada pelo marxismo. Por outro lado, na própria obra de Marx, coexistem tanto essa perspectiva da totalidade quanto uma visão entusiasta de uma crítica do capitalismo a partir do ponto de vista do trabalho e, nessa medida, inspiradora do modo como se desenvolveu historicamente o marxismo e o movimento operário. Há, por isso, como referiu BL, para a corrente da crítica do valor um duplo Marx: um Marx esotérico, crítico radical do capitalismo e da sociedade moderna, e um Marx exotérico, identificado com uma visão iluminista da história, do progresso e da Modernidade.

A Honra Perdida do Trabalho é um escrito de uma fase preliminar destas reflexões que aviam depois de ser desenvolvidas e aprofundadas nos anos seguintes. Ainda assim, para BL trata-se de uma boa introdução à obra de Kurz, e que permite um entendimento do seu percurso teórico.