Apresentação de Djidiu. A Herança do Ouvido
dia 22/02/2018 | 0 Comentários

Djidiu, em guineense, designa o contador de histórias, aquele que memoriza as histórias para depois as poder contar e recontar. É justamente este gesto de criação de um «lugar de fala», que valoriza a palavra como um instrumento que tanto se diz como se ouve e o arquivo como modo de potenciar a fala e a escuta, que está na base do livro Djidiu. A Herança do Ouvido, ontem apresentado na Tigre de Papel.

 

Ao longo de 2016, um conjunto de interessados em literatura africana e negra encontrou-se regularmente em Lisboa, por iniciativa da associação Afrolis. Além dos encontros foram também promovendo leituras públicas dos seus escritos, num processo que culminou com a publicação do livro. Na sessão pudemos contar com a participação de diversos djidius, que apresentaram o projecto e leram vários dos textos.

 

Como começou por ser explicado, o objectivo do livro foi, por um lado, fixar essa experiência de encontro e registá-la como um instrumento de construção de um discurso próprio e, por outro, dar visibilidade a «corpos que habitam a cidade» e são tornados invisíveis ou sujeitos a representações determinadas por uma sociedade «racista, paternalista e machista». A construção desse discurso próprio tem como propósito, por conseguinte, «evitar que sejamos vapor», mas também contribuir para «descolonizar a visão do mundo e a ideia do Outro».

 

Falar sobre o Outro é obviamente um modo de produção do Outro, o que leva a que a sua própria vivência quotidiana seja determinada por essa imagem exterior. O que este livro procura, então, é tornar audível uma voz nunca escutada, é fazer, sem edição, «autores de si próprios, sujeitos», os subalternos de uma narrativa histórica e ideológica naturalizada por séculos de opressão e colonialismo. Daí que o livro seja significativamente subintitulado «Doze formas mais uma de se falar da experiência negra em Portugal».

 

O djidiu é múltiplo, quer no seu conteúdo quer na sua forma: recorre a palavras, mas também a sons e movimentos; lança mão das várias línguas que o compõem, mas igualmente de um mosaico de linguagens e saberes.

 

O melhor será, evidentemente, ler todo o livro e experienciar a sua enormíssima força e beleza, como, por exemplo, tão bem mostra este poema de luZGomeS:

 

rUÍnAs ImAgInÁrIAs-CoNCReTaS

As ruínas de si… as ruínas de nós… as ruínas de mim… as ruínas do tempo passado expostas na montra do presente… as ruínas edificadas nas cidades dos sequestros… as ruínas da expropriação atlântica… as ruínas do imaginário concreto… as ruínas das dores desumanizantes… as ruínas que apodrecem meu ventre… as ruínas que me fazem outra – igual entre tantos outros semelhantes a mim…