Apresentação de Economia com Todos

Apresentação de Economia com Todos

Economia com Todos é um volume que reúne um conjunto de textos de autores do blogue Ladrões de Bicicletas. Foi publicado no ano passado, assinalando os 10 anos da fundação do blogue. Convidámos para uma conversa sobre o livro e sobre o blogue os economistas Ricardo Paes Mamede (RPM), João Galamba (JG) e Suana Peralta (SP), os dois primeiros também redactores do blogue.

RPM começou por fazer uma apresentação geral do blogue, desde a sua fundação em 2007 – pouquíssimo tempo antes da eclosão da crise – por João Rodrigues, Nuno Teles, José Guilherme Gusmão e Pedro Nuno Santos, a que se juntaram, poucos dias depois outros membros, entre os quais RPM, até aos dias de hoje, em que o Ladrões de Bicicletas se tornou num espaço incontornável de intervenção no debate económico e político. RPM sublinhou que o blogue funciona como um colectivo, ainda que seja composto por pessoas com opiniões políticas e económicas muito diferentes – umas militantes de partidos, outras sem partido; uma maioria de economistas, mas também membros vindos de outras áreas disciplinares.

Referiu-se depois, mais detalhadamente, às três áreas que, apesar das diferenças entre os seus membros, constituem os campos fundamentais que os unem. Em primeiro lugar, a crítica do neoliberalismo, entendido nos planos político e ideológico como um projecto de extensão da lógica do mercado a todas as esferas da vida em sociedade. Trata-se de um conjunto de ideias que ganhou muita força nos últimos anos e que, ao contrário do que alguns julgavam no início da crise, não veio a perder terreno. Uma das razões para isso, de acordo com RPM, passa pela capitulação da social-democracia ao ideário neoliberal.

Economia com Todos

Em segundo lugar, a discussão sobre a Europa é também um dos eixos principais do Ladrões de Bicicletas. Trata-se do tema em que as divergências entre os membros do blogue são maiores e mais visíveis, anda que convirjam na crítica ao modo como o projecto europeu se desenvolveu e à sua ancoragem ao projecto neoliberal. Entende RPM, por outro lado, que o blogue tem dado um contributo decisivo para a discussão sobre as questões europeias em Portugal.

Por fim, a terceira área central de intervenção do blogue é a luta de ideias no interior da academia, pugnando pelo pluralismo na ciência económica e combatendo, também nesse plano, a hegemonia, por um lado, do neoliberalismo e, por outro, da economia neoclássica.

Interveio depois SP, que começou por sublinhar a importância do blogue no debate público, por ser aquele que tem sido capaz de romper consensos. Destacou a importância de aumentar o número de pessoas a quem a discussão do blogue chega, tendo em conta a desproporção de meios no debate das ideias – deu como exemplo dessa desproporção uma publicação como o Observador, de um lado, por oposição ao Ladrões de Bicicletas, do outro. Referiu que considerava de grande importância a discussão sobre a situação dos media, sobre a qual João Ramos de Almeida tem escrito profusamente no blogue. Assinalou ainda a sua divergência em relação à posição de alguns membros do blogue sobre a questão europeia, uma vez que defende a necessidade da luta por mudanças no projecto europeu sem um retorno à lógica nacional.

No final, interveio JG. Começou por descrever os seus percursos académicos e profissionais e o modo como contribuíram para uma desilusão com a economia mais convencional. Foi quando resolveu fazer um doutoramento em Filosofia que acabou, por essa via, por regressar à economia com uma outra visão. A sua principal divergência com a economia neoclássica é a sua incapacidade para pensar a endogeneidade, de incorporar no pensamento económico a ideia de sistema. Para esta visão da economia, as crises são sempre choques exógenos. Pelo contrário, para JG é fundamental o contributo da Filosofia, nomeadamente a dialéctica e a ideia de sistema de Hegel, para uma compreensão da economia. O Ladrões de Bicicletas foi, para JG, um «porto seguro», identificando-se em boa medida com os diagnósticos, ainda que muitas vezes divirja nas respostas prescritas. Também aqui é a questão europeia que gera a principal diferença.

Depois das intervenções iniciais houve ainda tempo para um conjunto de outros comentários de muitos dos presentes, sobretudo sobre a questão europeia e sobre os problemas no ensino da Economia.