Conversa sobre Luiz Pacheco, com António Cândido Franco
dia 19/12/2017 | 0 Comentários

Ontem terminámos o dia na livraria a conversar sobre Luiz Pacheco. O mote era o mais recente livro de António Cândido Franco (ACF), Luiz Pacheco – Essencial, acabado de publicar. ACF fez questão de começar por afirmar que não se tratava de um biografia, mas antes de uma síntese biográfica, escrita em 15 dias. Como planeia publicar uma biografia de Luiz Pacheco no próximo ano, ACF sentiu necessidade de fazer uma espécie de ponto de situação relativamente à preparação desse trabalho mais de fundo.

A primeira, e principal, razão que levou ACF a lançar-se nesta empreitada é a convergência estreita que se verifica entre a obra e a vida de Luiz Pacheco. É mesmo, para ACF, um dos raros autores portugueses em que isso sucede de forma tão óbvia. Por outro lado, trata-se de um autor com quem ACF sente uma enorme afinidade, condição que considera indispensável para redigir uma biografia.

Para ACF, a biografia enquanto género literário tem sido, nos últimos anos, excluída dos estudos literários, com grande desvantagem para a sua própria capacidade de olhar para a história e para a literatura. Desde João Gaspar Simões – autor de biografias famosas de Eça de Queirós ou Fernando Pessoa – que não existem grandes biógrafos. Para ACF, um bom biógrafo é como que um retratista, ou seja, alguém que, depois de fazer um inquérito biográfico rigoroso e extenso, é capaz de traçar um retrato do biografado. Um retrato, obviamente, não é uma fotografia; isto é, tem sempre uma fortíssima marca da visão do biógrafo sobre o biografado.

É com esta perspectiva sobre o carácter de uma biografia que ACF está a trabalhar sobre a figura de Luiz Pacheco, que considera um exemplo de liberdade radical. Para ACF, o que estrutura tudo na vida de Luiz Pacheco é a sua relação com o pai e a rejeição do seu poder e da sua autoridade, manifesta através da rejeição de todas as formas de poder e autoridade. Num fenómeno que ACF designa por «um complexo de Édipo muito especial», e que teria atravessado toda a geração surrealista portuguesa, toda a vida pessoal e literária de Luiz Pacheco, fosse como autor, editor, crítico, etc., essa dimensão de anti-Édipo está sempre presente.

A conversa terminou depois, animada, com um conjunto de questões levantadas pela assistência, nomeadamente sobre a dimensão autobiográfica dos escritos de Luiz Pacheco ou a sua peculiar relação com a condição de autor.