Conversa sobre o livro Comportem-se como Adultos, de Yanis Varoufakis
dia 06/01/2018 | 0 Comentários

Na passada quinta-feira retomámos, com casa cheia, a programação na Tigre de Papel, depois das festividades de Natal e fim do ano. O ponto de partida era o livro de Yanis Varoufakis Comportem-se como Adultos, onde o icónico ex-ministro das Finanças grego descreve detalhadamente toda a sua relação com as instituições europeias na fase subsequente à vitória eleitoral do Syriza em Janeiro de 2015, há precisamente três anos. O livro de Varoufakis era o mote, mas o propósito da conversa era um pouco mais ambicioso. O que se pretendia era colocar em cima da mesa duas questões muito presentes nos debates à esquerda, e de modo particularmente intenso no contexto do processo grego: por um lado, a tensão entre uma perspectiva que valoriza o Estado-nação como o espaço privilegiado para a acção política e uma outra que vê um maior potencial no esbatimento de fronteiras e nos espaços de integração mais amplos; por outro lado, a tensão entre quem entende as instituições como o campo próprio da política e quem privilegia os movimentos e a acção política extraparlamentar. Participaram no debate José Reis (JR), Bruno Peixe Dias (BPD) e Samuel Cardoso (SC).

JR fez a primeira intervenção e centrou-se sobretudo numa descrição do livro e numa análise sobre a sua importância para a compreensão socio-antropológica da situação política europeia dos últimos anos, bem como sobre as suas elites e a construção de alternativas. Desde logo, o livro fornece um contraponto à imagem recorrentemente construída pelos media de um Varoufakis vaidoso, irresponsável e pouco sólido. Se é certo que Varoufakis vinha do mundo académico e tinha pouca experiência política acumulada, também é verdade, para JR, que no momento daquilo que designou como «capitulação do Syriza» (o momento em que o Governo grego aceitou o programa austeritário imposto pelas instituições europeias e o FMI em troca de um programa de resgate), ele foi o único que «não vacilou». Para JR, essa capitulação teve efeitos traumáticos. Numa primeira análise, poder-se-ia mesmo compará-la com um novo Pacto Germano-Soviético ou uma segunda Queda do Muro de Berlim. Numa análise mais fina, porém, todo o processo grego teve o mérito de fazer «cair a máscara do neoliberalismo» e acabou por dar um contributo para os bons resultados subsequentes da esquerda noutros países, como Portugal ou Espanha. Uma outra importância do livro, para JR, é a descrição detalhada do estado da política internacional e das suas elites. Para Varoufakis, a política internacional actual é composta por um conjunto de caixas negras, opacas, obscuras e com ligações entre si e com o sistema mediático, e que distinguem os insiders (quem está dentro do sistema de poder) e os outsiders (quem está fora do sistema de poder). Por fim, JR destacou a importância do livro para uma compreensão psicopolítica de Alexis Tsipras, personagem cujo retrato vai sendo traçado ao longo de todo o processo.

Seguiu-se a intervenção de BPD, que começo por elogiar o livro por se tratar de uma narrativa que «se lê como um romance» e que nos dá uma descrição detalhada de todo o processo grego, com a vantagem de ser um livro de memórias muito frescas (dos últimos dois/três anos) e de acontecimentos que decorreram num espaço curto de tempo (cerca de sete meses). Se a missão do Syriza era assegurar um programa de reestruturação da dívida grega, em conjunto com um plano de crescimento económico mínimo, mantendo a Grécia na Eurozona, a sua estratégia era conseguir que o «outro lado» percebesse que tinha igualmente interesse em partilhar essa missão. Ou seja, fazer entender aos credores da Grécia que aqueles obectivos eram os que lhes permitiriam ser ressarcidos dos seus créditos. A perspectiva, portanto, era a de que um programa de esquerda teria uma capacidade maior de responder à crise e de assegurar uma mudança de trajectória. Neste ponto, BPD assume um primeiro distanciamento em relação a Varoufakis, por considerar que este cai num problema recorrente à esquerda que é estabelecer o plano da racionalidade como o campo de divisão entre esquerda e direita – fenómeno em que, para BPD, pesa a herança racionalista do Iluminismo. Ou seja, segundo esta perspectiva, tende a considerar-se que a esquerda, através de uma suposta capacidade maior de compreensão do real, é portadora de uma maior competência para gerir esse mesmo real. Essa visão, para BPD, revela – particularmente numa personagem como Varoufakis – um elitismo que não é muito diferente do que se encontra nas elites que se pretende combater. Um mesmo elitismo que também se revela quando Varoufakis, recorrentemente, descreve o movimento social grego («o povo grego»…) como uma espécie de «pano de fundo decorativo» em todo o processo.

Por fim, interveio SC, que começou por referir que o livro conta «a história de como um grupo de pessoas que ousaram apresentar uma alternativa foi encostado à parede» e acabou por «trair o seu projecto político». Para SC, o livro falha em aprofundar uma discussão sobre a natureza da União Europeia, bem como sobre as possibilidades de intervenção em instrumentos como o Estado-nação ou o espaço europeu. Não faz sentido, segundo SC, opor uma visão soberanista ao internacionalismo, uma vez que se deve procurar intervir em todos os planos simultaneamente. Era esse a perspectiva inicial do Syriza que, com um programa reformista mínimo, tinha a capacidade de juntar forças. O problema, porém, terá disso a incapacidade de estar preparado para o carácter irreconciliável entre um caminho de desenvolvimento económico e os interesses das elites europeias – em grande medida apostadas em tornar a Grécia num exemplo que acautelasse o crescimento de projectos alternativos noutros países. Essa impreparação acabou por levar à capitulação do Syriza e à incapacidade de perceber que uma eventual saída da Grécia da Eurozona teria sido inevitável e se justificaria não por nacionalismo, mas por razões de emancipação e ruptura. Para SC, faz sentido pensar como se pode evitar o nacionalismo à esquerda: seria necessário, por um lado, aprofundar uma perspectiva de classe e de combate a todas as opressões e, por outro, promover mais democracia nos espaços à esquerda.

A noite terminou com um animadíssimo debate com contributos de muitos dos presentes e que tocou diversos temas: a oposição entre soberanismo e internacionalismo, a saída ou permanência na Eurozona, o psicologismo da análise de Varoufakis, as formas que assume a crítica ao neoliberalismo, etc.