Conversa sobre o livro Luta Armada, de Isabel do Carmo
dia 12/12/2017 | 0 Comentários

Isabel do Carmo esteve este fim-de-semana na nossa livraria a apresentar o seu último livro – Luta Armada.

Trata-se de uma obra de grande fôlego, de quase 800 páginas, sobre a luta armada em Portugal e a sua contribuição na luta contra a ditadura, bem como uma reflexão sobre o uso da violência na luta política em geral, tendo sido realizada uma abordagem histórica desde os primeiros tempos em que a esquerda começa a utilizar a violência na luta política, nos EUA, no séc. XIX, passando por Lenine e pelos Bolcheviques, até aos nossos dias.

Isabel do Carmo, tendo sido uma das fundadoras de estruturas armadas no combate a o fascismo, há muito tempo que queria realizar este projecto pois estava em posição naturalmente privilegiada para levar a cabo uma investigação aprofundada.

Chegou mesmo, em conjunto com o historiador Fernando Rosas, a propor uma investigação à FCT, mas o financiamento foi recusado.

No entanto, a lacuna que resulta de não existir um estudo desta realidade em Portugal é de tal forma gritante, que Isabel do Carmo decidiu colocar, ainda assim, mãos à obra.

Explicou-nos na sessão do passado fim-de-semana que não só as acções armadas em Portugal não têm sido relevadas até agora na luta contra o fascismo, como, pior, a informação existente é quase sempre distorcida, quando não é mesmo falsa.

A título de exemplo, cita o seu próprio caso: inúmeras vezes tem sido falsamente acusada de implicação em “assassinatos políticos”, nomeadamente ainda agora pelo semanário Expresso, por altura do lançamento deste livro, quando se trata de uma mentira várias vezes desmentida.

Essa é aliás uma das características que diferencia as organizações armadas portuguesas estudadas (ARA, LUAR e Brigadas Revolucionárias), de tantas outras na Europa: o objectivo claro de nunca fazer mortos entre o inimigo com as suas acções.

Pelo contrário, denuncia a investigadora, a desinformação parece funcionar ao contrário quando se tratam das acções armadas levadas a cabo pela extrema-direita, após o 25 de Abril: as várias mortes nunca foram suficientemente investigadas e sempre foram silenciadas.

Reconheceu no entanto, que na sua experiência militante nestas organizações, observou que havia mais ou menos facilmente “fugas guerrilheiristas” de certos elementos, e essa foi também uma base de reflexão e de investigação, abordando temas como a “catequização” de algumas estruturas e grupos armados; a infiltração policial; a radicalização das organizações após a prisão dos seus principais dirigentes, etc.

De referir ainda que a obra contém importantes entrevistas a 3 responsáveis de estruturas armadas em Portugal: Raimundo Narciso (ARA); Carlos Antunes (BR) e Camilo Mortágua (LUAR), com contribuições diferentes mas muito importantes para a compreensão da realidade portuguesa. Para além disso publica-se também uma relevante entrevista da própria Isabel do Carmo.

A autora terminou a sessão, após algumas perguntas e comentários, com uma nota de esperança na continuação da luta dos povos, já não através de formas armadas, hoje em dia totalmente desadequadas, mas recorrendo talvez a “ilegalismos”, como foram por exemplo o movimento das “praças ocupadas” em que por toda a Europa e EUA, as pessoas se organizaram de base, de forma autónoma, lançando mão das redes sociais e das novas tecnologias, na reivindicação dos seus direitos e liberdades.