PODCAST: Debate A Catalunha e a Esquerda (28 Fev 2018)

Debate sobre a Catalunha e a Esquerda

O processo político na Catalunha é suficientemente complexo para que tenhamos saído do debate de ontem, para o qual convidámos Nuno Ramos de Almeida (NRA) e Luhuna Carvalho (LC), sem chegar a conclusões ou consensos demasiado definitivos. Para mais, o ângulo de abordagem que propusemos foi olhar para a Catalunha a partir da esquerda, quando é sabido que as divisões políticas na Catalunha escapam à tradicional separação ideológica entre esquerda e direita. Ainda assim, pareceu-nos interessante olhar para este tema a partir do que pensam as formações de esquerda na própria Catalunha, bem como ligando esta discussão ao debate recorrente à esquerda entre aproximações e afastamentos à ideia de soberania nacional.

 

Para NRA, a divisão que faz sentido não é, porém, entre soberanistas e não soberanistas, mas sim entre quem entende que é necessário combater a globalização neoliberal e quem propõe privilegiar formas transacionais de luta por mudar os termos da globalização. Defendendo a primeira dessas posições, NRA considera necessário ganhar instrumentos políticos de combate contra a globalização neoliberal, aos mais variados níveis, e que, nas circunstâncias históricas actuais, o plano nacional tem aí um papel preponderante. NRA partiu daqui para uma digressão sobre as condicionantes históricas do independentismo catalão, desde a manutenção de um conjunto de estruturas do aparelho repressivo franquista e a determinação constitucional da indivisibilidade de Espanha, defendida com recurso à força. Descreveu, por um lado, a aproximação das elites da região à ideia independentista como uma estratégia de afastamento da política de austeridade do Estado espanhol e do discurso da corrupção no período da crise, ao mesmo tempo que a adesão popular se agudizou também bastante nessa fase, sobretudo depois da rejeição do plano de autonomia da região. Referiu-se depois à intensa repressão que o Estado espanhol tem levado a cabo contra as posições independentistas.

 

Para LC, há que começar por pensar o processo político na Catalunha a partir das suas determinações históricas, olhando para o modo como tanto a ideia independentista como as políticas do Estado espanhol, como ainda o posicionamento da esquerda, são determinadas pelo desenvolvimento histórico do capitalismo. Vê, igualmente, necessidade de olhar para a complexa estrutura de classes catalã e para forma como isso se traduz na adesão ou rejeição do independentismo. Identifica, por exemplo, uma classe média, sobretudo e Barcelona, que desenvolveu uma rejeição de Espanha sobretudo de natureza cultural, olhando para Espanha como atrasada e conservadora. Mas, por outro lado, refere-se a sectores das classes trabalhadores – por exemplo, os trabalhadores imigrantes – que se afastam do independentismo através de um fenómeno semelhante à resistência dos trabalhadores norte-americanos do rusty belt às posições mais liberais. Entende, portanto, que um apoio ao independentismo catalão deve ser suficientemente crítico e determinado pela consideração das condições históricas em que ele se desenvolve.