Exibição de Ruínas, de Miguel Mozos
dia 01/02/2018

Mostrar lugares, os mais diversos, um pouco por todo o país, que, por alguma razão, deixaram de ter a habitabilidade ou o funcionamento para que foram construídos, é talvez um bom resumo do guião de Ruínas, o documentário de Manuel Mozos que ontem exibimos na Tigre de Papel, em mais uma sessão de cinema organizada pela Anne Leclercq. Como o próprio Mozos explicou no final da exibição, o título do filme é ambíguo o suficiente para que cada pessoa possa construir uma interpretação própria daqueles 60 minutos de lugares vazios, desocupados e, em certo sentido, esquecidos, apesar de visíveis.

Segundo Mozos, o objectivo do filme não era levar a cabo um exercício de nostalgia ou, como muitas vezes sucede com a própria ideia de ruína, de produção de uma lógica de monumentalização de edifícios e espaços que, em virtude do esvaziamento das suas funções, vêm com o tempo a degradar-se. Pelo contrário, a simples mostra em sequência desses lugares tem a capacidade de produzir sentidos muito diversos e que, necessariamente, se cruzam com a experiência subjectiva de cada espectador. Uma parte importante dessa produção de sentido resulta do jogo que Mozos propõe com a ligação entre as imagens e o som. Essa ligação é tudo menos óbvia. A opção foi cruzar as imagens das «ruínas» com a leitura em off de textos de diversas naturezas e, a grande parte das vezes, desligados da história de cada local: trocas de correspondência, poemas, relatórios médicos, etc. Esta «colagem» acaba por dar uma certa vida àqueles espaços. Não de modo a que revivam o que foram, mas justamente para que se ressignifiquem.

Um excelente filme que, como alguém referia, dá vontade de rever. Cada vez que se veja resultará, certamente, em novas descobertas e interpretações.