Filme ‘Des morts’, de Thierry Zeno | Conversa com Mariana Goes

Filme ‘Des morts’, de Thierry Zeno | Conversa com Mariana Goes

O aviso foi-nos dado logo no início pela Anne Leclercq, a nossa programadora de cinema na Tigre de Papel, que ontem nos trouxe ‘Des morts’, do belga Thierry Zeno: «o filme é muito forte. Não é um filme de terror, mas tem imagens muito fortes». E tinha razão de ser, esse alerta. De facto, este documentário filmado nos anos 1970 percorre diversos pontos do mundo a registar rituais associados à morte. É, portanto, composto por muitas imagens que não estamos habituados a ver, sobretudo no padrão cultural ocidental, em que a morte foi crescentemente higienizada e afastada dos nossos olhos. Quer as cerimónias comunitárias, por exemplo na Tailândia, quer o modo como os cadáveres são esquartejados e tratados nas morgues no Ocidente, todos esses ambientes nos surgem no filme com uma crueza desarmante.

 

Foi precisamente em torno das semelhanças e das diferenças entre o modo como os padrões culturais do Ocidente e os outros olham a morte que se centrou o comentário da Mariana Goes, e a conversa que se desenrolou, no final da exibição. Enquanto elementos de continuidade e semelhança, destaca-se a presença da ideia de imortalidade, ou de sobrevida para lá da vida física do corpo, e o modo como a nossa preparação para a morte se destina a tornar a vida mais feliz. Por outro lado, como diferenças fundamentais assinala-se o já referido processo de higienização no Ocidente, por oposição a um contacto muito mais naturalizado com os corpos mortos noutros padrões culturais, mas também a rentabilização económica da morte no Ocidente.