Apresentação do livro Cadeia do Forte de Peniche, de Carlos Brito
dia 25/05/2017 | 0 Comentários

Comecemos, desta vez, pelo fim. Carlos Brito (CB), que passou pela Tigre de Papel na passada sexta-feira, terminou a sessão afirmando, a propósito da luta antifascista antes do 25 de Abril, que não bastava que os militantes a activistas fossem portadores de uma teoria e uma consciência da situação – era também indispensável que fossem movidos por um «romantismo revolucionário». Comunistas, anarquistas, maoistas e outros revolucionários que se envolveram na luta antifascista mobilizavam-se não apenas pela necessidade de derrubar o fascismo, mas também pela abertura de um horizonte de uma sociedade diferente e mais justa. E era isso, fundamentalmente, que animava a sua disponibilidade para lutar em condições tão difíceis.

A razão principal da vinda de CB à Tigre de Papel foi conversar sobre o seu mais recente livro, Cadeia do Forte de Peniche. Como foi vivida, que dá conta, justamente, de uma parte importante dessas dificuldades com que os antifascistas se defrontavam – o sistema prisional do fascismo. CB justificou a publicação deste livro com três razões. Em primeiro lugar, queria intervir na polémica que se instalou quando o Governo decidiu incluir o Forte de Peniche numa lista de cerca de três dezenas de monumentos públicos que iam ser entregues a entidades privadas. Para CB, tornava-se necessário preservar o Forte, onde esteve preso diversos anos na década de 1960, como um elemento essencial de memória da repressão do fascismo. A segunda razão prende-se com a constatação de que, nos últimos anos, se tem verificado uma tendência para um certo branqueamento do fascismo. É então necessário não deixar de contar a história de profunda repressão do regime do Estado Novo, e em particular do seu sistema prisional. Por último, o livro surgiu também da necessidade de disputar aquilo a que CB chama a «batalha da opinião pública». Neste aspecto, CB considera que, no que respeita ao Forte, a batalha está para já ganha, uma vez que houve um recuo na sua concessão a privados e está mesmo aprovado um projecto de o transformar em museu.

CB referiu-se depois às características do Forte de Peniche, que era a prisão onde os presos políticos passavam mais anos, uma verdadeira prisão penitenciária, depois de passarem pelo Aljube, na fase de inquérito, e por Caxias, nos primeiros três a seis meses. A passagem por aquela prisão sujeitava os presos a longos períodos de isolamento (cerca de 20 horas por dia), ao mesmo tempo que, nos períodos em que não estavam isolados, estavam impedidos de falar uns com os outros, nomeadamente durante as refeições. Por outro lado, aquela era a prisão em que a organização da vida prisional era mais refinada em termos de repressão psicológica. Por exemplo, os castigos aplicados a um preso eram informados a todos. No regulamento dos guardas prisionais afirmava-se que «o preso deve ter sempre a sensação de estar a ser vigiado», bem como que «tudo o que não é expressamente permitido é proibido».

A prisão era também, por outro lado, um terreno muito agudo de luta e resistência. Desde logo, as fugas, que CB considera serem a «forma superior de luta» no interior de uma prisão. Ficou célebre a fuga de um conjunto de dirigentes comunistas, incluindo Álvaro Cunhal, do Forte de Peniche. Havia, porém, diversas outras formas de luta que se foram desenvolvendo na prisão: as greves da fome, os levantamentos de rancho, as reivindicações em torno das condições das instalações ou da alimentação, etc. Em simultâneo, a solidariedade entre os presos era também um aspecto decisivo na passagem pelo Forte. CB referiu-se designadamente à chamada ‘comuna’, ou seja, à partilha por partes iguais entre todos os presos políticos dos víveres que chegavam do exterior pelas famílias.

Por fim, a sessão terminou com uma animada conversa entre os presentes, onde não faltaram diversos relatos de episódios de luta contra o fascismo e a repressão.