Conversa com o José Soeiro sobre o seu livro A Falácia do Empreendedorismo
dia 25/05/2017 | 0 Comentários

O sociólogo e deputado do Bloco de Esquerda José Soeiro esteve na nossa livraria a apresentar a sua obra A Falácia do Empreendedorismo.

Soeiro começou por lembrar que a preparação deste livro, que escreveu com outro sociólogo – Adriano Campos –, começa em pleno governo PSD/CDS de Passos Coelho e Paulo Portas, em que «o discurso do empreendedorismo estava num boom insuportável».

De facto, os sociólogos fizeram um trabalho de investigação aprofundado e perceberam que, com o apoio do Estado português, em particular através do IEFP e do Ministério da Educação, foi criado um verdadeiro «negócio do empreendedorismo» em que o que os autores chamam «empreendedores de palco» – consultores, associações e empresas privadas, mais ou menos alinhadas politicamente – foram pagos para se desmultiplicarem em sessões para desempregados, jovens à procura do 1.º emprego, estudantes, muitas vezes até estudantes do 1.º ciclo, propagandeando um discurso marcadamente ideológico, em que se quer fazer crer que o sucesso ou insucesso profissional depende de características pessoais, como «se tens ou não espírito empreendedor; se estás ou não disposto a arriscar e a falhar se necessário for; se estás disposto a trabalhar duramente, mesmo que ao princípio não estejas a ser recompensado», etc. Um discurso ideológico que, além de exaltar o individualismo, a «economia de mercado» e a competição, mascara as raízes estruturais económicas do desemprego e do próprio real funcionamento da economia.

Os autores estudaram em seguida os resultados concretos das políticas de empreendedorismo em Portugal e chegaram à conclusão de que o impacto sobre o emprego foi nulo, uma vez que os postos de trabalho criados neste processo foram mais do que compensados pela destruição de emprego levada a cabo pelas políticas austeritárias do Governo. Chamam ainda a atenção para o facto de alguns casos de sucesso serem sobretudo protagonizados por «empreendedores» que tinham à partida meios financeiros para investir e correr riscos. Enquanto isso, muitos outros, que recorreram a créditos ou pediram a entrega antecipada dos seus subsídios de desemprego e que não conseguiram naturalmente vingar numa economia deprimida, como uma tendência natural para a centralização monopolista, viram-se em situações pessoais muito complicadas, defraudadas pelo discurso do empreendedorismo.