80 anos de Guernica | Conversa com Miguel Angel Perez
dia 25/05/2017 | 0 Comentários

Realizámos ontem, ao final da tarde, mais um sessão do ciclo ‘O que É que Tem o Sete que É Diferente dos Outros’, desta feita dedicado aos 80 anos do bombardeamento de Guernica. Convidámos para a sessão o historiador Miguel Angel Perez (MAP).

MAP começou por fazer um enquadramento histórico da Guerra Civil de Espanha, sobretudo no que respeita às regiões do Norte de Espanha, a zona mais desenvolvida do país e aquela que mais se aproximava de um desenvolvimento típico da europa Ocidental. As diversas províncias dessa região – nomeadamente o País Basco e as Astúrias – eram marcadas por enormes diferenças no que respeita aos equilíbrios de poder, influências políticas e sociais, etc. Se as Astúrias eram uma província com um profunda influência das diversas forças à esquerda – socialistas, comunistas, anarquistas –, bem como do movimento sindical, no País Basco, essa mesma influência era muito temperada com o desenvolvimento do autonomismo, muito influenciado na altura pelo catolicismo. O Partido Nacionalista Basco (PNV) era, na verdade, a força política com mais influência, o que, pelas suas características, determinava relações complexas quer com as forças de esquerda e republicanas quer com a própria relação do País Basco com os poderes da República Espanhola.

Essas relações complexificaram-se com o início da Guerra Civil, para mais quando a esquerda aumentara substancialmente, em diversas zonas da província, a sua influência nas eleições do início de 1936. Quando, em 18 de Julho de 1936 se dá o golpe de extrema-direita que marcaria o início da Guerra, verifica-se uma grande divisão no PNV – uma parte apoia o golpe, enquanto a outra parte integra o esforço de resistência ao avanço das forças franquistas.

É nesse contexto que se dá, em 26 de abril de 1937, o célebre bombardeamento de Guernica. Para MAP, trata-se de um acontecimento marcante na história do século XX, não tanto pela importância militar de Guernica, mas por ter inaugurado uma forma de ataque militar indiscriminado sobre a população civil, com o objectivo provocar o máximo de baixas e de desmoralizar o adversário, que depois, incluindo ao longo da Guerra Civil de Espanha, se generalizou. Por outro lado, o bombardeamento foi desde logo usado como símbolo do autonomismo basco, o que o transformou num episódio incontornável da história da Guerra Civil de Espanha. Muitos outros episódios semelhantes, noutros locais, nunca ganhariam a mesma importância simbólica. Em suma, independentemente da importância que efectivamente teve, o bombardeamento de Guernica é igualmente uma parte decisiva da construção dos mitos do autonomismo basco.