Filme ‘Outro País’, Sérgio Tréfaut | Conversa com Camilo Mortágua
dia 05/05/2017 | 0 Comentários

A Revolução de 25 de Abril e o processo revolucionário que se desenvolveu no ano e meio seguinte despertaram uma enorme curiosidade fora de Portugal. Não só o país se tornou palco do conjunto de tensões geopolíticas que marcavam a época, como também muitos cineastas e fotógrafos para cá se deslocaram para documentar o processo revolucionário. ‘Outro País’, o documentário de 1999 de Sérgio Tréfaut que ontem à noite exibimos na Tigre de Papel, procurava justamente dar conta dessa afluência de artistas estrangeiros a Portugal nesse período. Trata-se, por isso, de um olhar sobre o processo revolucionário através da selecção de excertos significativos desses trabalhos, como também de uma espécie de balanço – feito com cerca de 25 anos de distância – da Revolução. O filme inclui depoimentos de vários desses artistas, tendo mesmo alguns deles regressado a Portugal para revisitar lugares e pessoas.

Por difícil, e talvez inútil, que seja fixar balanços definitivos, é impossível deixar de notar alguma unanimidade no enorme entusiasmo que o processo revolucionário português despertou nos artistas que se empenharam em documentá-lo, mas igualmente no sentido de profunda frustração pelo seu desfecho. As razões indicadas para esse desfecho são muitas e diversas, e são porventura a parte da discussão que mais interessa promover hoje, 43 anos depois da Revolução.

Foi um pouco por aqui que se orientou a conversa que se seguiu à exibição e que contou com a presença de Camilo Mortágua (CM), histórico militante revolucionário e participante activo nalguns dos episódios que surgem no filme. Para CM há hoje alguma tendência para retratar o período revolucionário de uma forma caricatural, sublinhando sobretudo as imagens mais «folclóricas» e descartando uma reflexão sobre a dimensão mais quotidiana e profunda daqueles dias. Sem prejuízo da vantagem de olhar para os filmes produzidos na altura, devemos porém ter o cuidado de os ver à luz das tendências políticas que cada um deles não deixava de representar. Do ponto de vista de CM, o que justifica o envolvimento empenhado de tanta gente no processo revolucionário foi a sua dimensão de festa. Por outro lado, o que terá determinado a sua derrota foi o facto de se ter confiado o poder àqueles que eram vistos como tendo capacidade – do ponto de vista da formação académica, técnica, etc. – de o conduzir. Quem, no entanto, naquele contexto de baixíssima escolaridade generalizada, tinha essa capacidade eram os que, antes da Revolução, tinham possibilidades económicas para aceder a um percurso escolar mais avançado, ou seja, aqueles que, precisamente, menos interesse tinham em aprofundar transformações mais amplas.Camilo Mortágua