PODCAST: Género, identidade e discurso (14 Mar 2018)

Género, identidade e discurso

Para o debate sobre ‘Género, identidade e discurso’, a Unipop propunha-nos uma conversa sobre a dimensão performativa do género e o modo como a proliferação de discursos sobre a questão identitária se converteu num terreno de confronto político. Convidou, para isso, Andreia Cunha (AC), activista feminista e mestre em Ciência Política, e António Fernando Cascais (AFC), professor universitário e investigador.

AC começou por enunciar um conjunto de exemplos do quotidiano – por exemplo, nas mensagens publicitárias ou nas relações pessoais – de como, no plano discursivo, somos produzidos para assumir uma certa performatividade de género, determinando comportamentos tidos como masculinos ou femininos. O poder estabelece, pelo modo como prescreve esses comportamentos, relações entre os indivíduos em que uns estão à partida num lugar de privilégio em relação a outros. Sublinhou, depois, que todos os espaços regulados por essas relações de poder são também lugares em que é possível desenvolver práticas e discursos de resistência.

AFC, por seu turno, começou por uma definição de performatividade de género e performatividade queer. Por performatividade de género entende o modo como todos somos feitos, pela linguagem, como homens ou mulheres. Esse processo de produção de sentido, desenvolvido a partir do nascimento, constitui cada indivíduo como sujeito inteligível e normal. Essa constituição do sujeito é feita pela repetição da correspondência de um determinado sexo anatómico com a consciência desse sexo anatómico e com a reprodução em conformidade de determinados comportamentos. Por outro lado, a performatividade queer será uma estratégia de subversão da performatividade de género, assumindo criativamente, também pela repetição, um comportamento que transforma a vergonha de não corresponder à normalidade em orgulho. Por fim, referiu-se à forma como estas relações são herdeiras do Iluminismo, de acordo com cujas premissas é possível uma sociedade democrática, com um sentido de comunidade, a partir do uso da palavra. Um tal projecto revelou-se profundamente problemático, uma vez que a palavra é ela própria determinada por realidades repressivas.

Após as intervenções iniciais, prosseguiu-se o debate em diversas direcções, nomeadamente sobre as possibilidades de resistência à repressão patriarcal e o modo como essa resistência pode articular-se com resistências a outras opressões. Discutiu-se ainda os riscos – sublinhados sobretudo por AFC – de estratégias de subversão identitária demasiado centradas em escolhas individuais, por poderem descaracterizar uma perspectiva mais democrática e de afirmação da universalidade dos direitos.