Manifesto do Partido Comunista | conversa com Vítor Dias
dia 28/04/2017 | 0 Comentários

Terminámos ontem, com uma discussão sobre o Manifesto do Partido Comunista (MPC), a série de eventos que este mês dedicámos a Karl Marx. Para esta conversa, convidámos Vítor Dias (VD), militante comunista de longa data e interveniente activo no debate público, actalmente sobretudo através do seu blogue O Tempo das Cerejas (http://otempodascerejas2.blogspot.pt).

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VD começou por contextualizar historicamente o MPC, enquanto documento produzido por Marx e Engels, em 1848, por tarefa atribuída pelo congresso da Liga dos Comunistas, uma pequena organização revolucionária internacional. O MPC seria, portanto, a plataforma programática da Liga dos Comunistas. Foi escrito e publicado no ano em que, na Europa, se deu um conjunto de revoltas e sublevações um pouco por toda a Europa, caracterizadas, por um lado, por serem revoltas burguesas com uma forte participação popular e, por outro, por terem sido todas reprimidas e esmagadas. O tom do MPC tem, obviamente, também uma marca intensa desse contexto político efervescente. Por estas razões, o MPC não tinha a pretensão de ser uma obra teórica de fôlego, mas sobretudo de afirmar um ponto de vista e um propósito.

Para Engels, nos termos do que escreveu mais tarde num prefácio à obra, o MPC tem sobretudo três pontos fortes: (1) a ideia de que a forma política de uma sociedade é determinada pela sua base social e económica; (2) a afirmação de que toda a história é a história da luta de classes; e (3) a conclusão de que destes princípios decorre que o proletariado, ao libertar-se, liberará também toda a sociedade da opressão.

Para VD, os conceitos mais importantes do MPC mantém uma grande actualidade, ainda que, no plano do discurso (mesmo no campo do marxismo), estejam relativamente ausentes ou tenham sido substituídos por outras formulações. Ainda assim, considera também que há um conjunto de aspectos que devem ser lidos à luz da experiência e das condições históricas. Por exemplo, a política de alianças na estratégia dos comunistas deverá ter em consideração as profundas mudanças sociais que se verificaram desde meados do século XIX. Por outro lado, a afirmação de que ‘os operários não têm pátria’, mantendo-se como um importante princípio geral, deve ser equilibrada com a ideia de que a luta revolucionária se faz, em primeira instância, no espaço nacional, conciliando internacionalismo com patriotismo. Por fim, para VD, deve ser contrariada a tese, muito presente no MPC, da inevitabilidade da construção histórica do socialismo, afirmando, ao invés, a sua possibilidade.

Seguiu-se depois uma animada conversa, passando por diversos temas – de diversos aspectos históricos do desenvolvimento do marxismo às condições da luta política na actualidade.