50 anos da publicação de A Sociedade do Espectáculo, de Guy Debord. Conversa com Ricardo Noronha
dia 27/10/2017 | 0 Comentários

Que interesse poderá, 50 anos depois da sua publicação, um livro ainda suscitar? Sobretudo tratando-se, como é o caso de A Sociedade do Espectáculo, de Guy Debord, de uma obra, para todos os efeitos, muito marcada pelo contexto político e cultural da França de meados dos anos 1960. A verdade é que continua a ser um livro com um muito razoável nível de influência em muitos dos debates políticos e filosóficos dos dias de hoje, bem como uma referência recorrente na produção do pensamento que se reivindica do marxismo ou de outras tradições políticas radicais. Foi este o mote da conversa que ontem teve lugar na Tigre de Papel e para a qual convidámos o historiador Ricardo Noronha (RN).

RN começou por sublinhar o facto de A Sociedade do Espectáculo ter constituído um esforço para dar uma coerência de conjunto às preocupações teóricas da Internacional Situacionista, organização criada em 1958 e da qual Debord foi uma das principais figuras. Composto por 221 teses, seguindo a tradição expositiva do idealismo alemão, o livro procurava, por um lado, analisar as condições do capitalismo à época, e ao mesmo tempo, por outro, empreender as sua crítica radical e imaginar estratégias para a sua superação. O conceito central do livro, e aquele a partir do qual procurava levar por diante os seus intentos, é o «espectáculo». Ao contrário da acepção mais comum que o termo foi posteriormente ganhando, espectáculo, no contexto da obra de Debord, define o estádio de desenvolvimento histórico da sociedade produtora de mercadorias. Apoiando-se na influência que sobre o seu pensamento tinham autores como Marx, Hegel ou Lukács, Debord desenvolve igualmente conceitos como totalidade ou reificação, do mesmo modo que analisa as condições para a transformação radical da vida quotidiana e a superação do capitalismo.

Por outro lado, A Sociedade do Espectáculo surge num período de intensa luta social e política em França, que teve o seu ponto mais elevado nos acontecimentos de Maio de 1968. Para Debord, a medida da influência que o livro teve nesses acontecimentos foi a circunstância de ter sido o livro mais roubado nas livrarias em Paris durante o ano de 1968.

Depois da intervenção inicial de RN conversou-se animadamente sobre a presença da Internacional Situacionista no contexto político e cultural da época, sobre o modo como se desenvolveu e extinguiu e sobre as relações entre os seus membros.