Apresentação de Moçalambique, de Manuel da Silva Ramos
dia 26/10/2017 | 0 Comentários

Moçalambique é o curioso título do mais recente romance de Manuel da Silva Ramos (MSR). Tivemos ontem, ao final do dia, o gosto de o receber mais uma vez na Tigre de Papel para apresentar o seu livro. Começámos por ouvir umas palavras do editor do livro, Marcelo Teixeira, que dirige a Parsifal, referindo-se a MSR como o mais original escritor português vivo. Para Marcelo Teixeira, MSR mantém, quase meio século depois da publicação do seu primeiro livro, Os Três Seios de Novélia, a sua criatividade no auge. Referiu igualmente que a Parsifal prepara, para o ano que vem, uma reedição desse primeiro romance, por ocasião dos seus 50 anos.

Ouvimos, de seguida, o jogral Manuel Diogo ler algumas passagens do livro, tendo ficado bem patente o carácter original da escrita de MSR.

Rui Lopo, logo a seguir, fez uma intervenção mais de fundo sobre o livro e sobre o modo como ela se insere no conjunto da vasta obra de MSR. Moçalambique, que Rui Lopo qualifica mais como uma novela do que como um romance, é uma espécie de revistação. Por um lado, revisita o período em que, no final dos anos 1990, MSR viveu em Moçambique enquanto bolseiro do Instituto Camões. Por outro lado, revisita o livro que resultara desse período em Moçambique, Viagem com Branco no Bolso. Rui Lopo deteve-se mais longamente na descrição de Sebastião, a personagem principal do livro. Caracterizou-o como o «indesejado», por comparação com a personagem histórica com o mesmo nome. Era o indesejado por ser um professor de Português e História excluído do ensino pelas suas posições e métodos de ensino heterodoxos, mas também por ser fisicamente feio e ter sido rejeitado pela mulher. Perante essas circunstâncias, Sebastião decide abandonar Portugal – «o país das interrogações permanentes» – e ir para Moçambique – «o país de todas as respostas certas». Assiste-se, então, a um processo de africanização de Sebastião, que muda de nome e dedica-se a completar a sua colecção de crânios procurando encontrar o de Samora Machel. De regresso, por fim, a Portugal, Sebsatião vem casado com a moçambicana Graça, monta um falanstério nas Olaias e dedica-se à agricultura biológica. Por outro lado, assume o objectivo de fundar uma nova dinastia de reis de Portugal negros. Daí que ao seu primeiro filho com Graça tenha chamado Afonso Henriques. Quanto aos aspectos estilísticos, Rui Lopo assinalou algumas marcas que vêm da influência surrealista na escrita da MSR: a invenção de palavras, a mudança súbita da pessoa do narrador ou a utilização da personagem como autor.

Por fim, MSR, com o seu habitual sentido de humor, contou algumas histórias passadas no seu período em Moçambique.