Agostinho por entre os livros: Novas leituras, novos paradigmas
dia 27/06/2017

Um dos aspectos que torna a figura de Agostinho da Silva tão fascinante é a dificuldade em encaixá-lo em categorias demasiado estanques, bem como a sua multiplicidade. O que se procurava com a conversa que aqui tivemos ontem era justamente uma digressão por essa multiplicidade, reflectida quer na obra quer na figura de Agostinho da Silva. Convidámos, por isso, Risoleta Pinto Pedro (RPP) e Pedro Martins (PM), dois estudiosos de Agostinho da Silva.

RPP começou por assinalar que, ainda que tenha morrido há mais de 20 anos, Agostinho da Silva continua hoje bastante vivo, sendo mesmo, desse ponto de vista, «o morto mais vivo de sempre». Para RPP, o que sucede, porém, é que se foi consolidando uma determinada imagem de Agostinho que ilude toda a sua enorme diversidade. Podemos dizer que há muitos Agostinhos, mas também que uma boa parte deles continua hoje desconhecida.

RPP referiu à importância de Agostinho enquanto escritor, uma faceta hoje quase toda por descobrir. A diversidade de géneros e a centralidade do trabalho sobre a linguagem são os elementos mais marcantes desta dimensão da sua obra. Por outro lado, como em tudo o que fazia, também o modo como se projectava na sua obra lhe dão um carácter singular.

Também no que se refere à dimensão mais pessoal, Agostinho da Silva continua hoje muito por revelar. Para RPP, a biografia de António Cândido Franco, recentemente publicada, veio dar um contributo muito importante para este debate, destacando o homem cheio de dúvidas que era Agostinho, mas também a importância que o amor tinha na sua vida ou alguns momentos mais dolorosos – a prisão política, o acidente do seu filho Pedro, o modo como se sentiu maltratado no programa de televisão «Conversas Vadias» ou a doença no final da vida.

PM, por seu turno, destacou igualmente o Agostinho da Silva plural, referindo-se-lhe como uma «figura poliédrica». Tratando-se de alguém muito estudado, é no entanto muito pouco conhecido, sobretudo entre as novas gerações. Por um lado, pela dificuldade que tem havido na reedição da sua obra; por outro, o enorme prejuízo que teve o programa televisivo «Conversas Vadias» na sua imagem, pelo modo como o seu pensamento foi simplificado e consolidado como uma espécie de vulgata.

O ecumenismo de Agostinho, não unívoco e com alterações ao longo da sua vida, é um aspecto que, de acordo com PM, mostra a complexidade desta figura. Tendo como âncora uma determinada visão do Cristianismo – centrada na terceira figura da Trindade, o que o fez interessar-se pelo culto do Espírito Santo e pela herança de Joaquim de Flora –, o ecumenismo de Agostinho olhava sobretudo para a possibilidade de articulação entre todas as religiões. Era, igualmente, para PM, um socialista cooperativista, defendendo que a cooperativa só pode funcionar na medida em que seja dirigida por um espírito religioso. A sua aproximação à Igreja fazia-se, no entanto, confrontar-se com a necessidade de pensar livremente.

Por fim, PM definiu Agostinho da Silva como um visionário, um agitador e um desassossegador que tinha a enorme vantagem de não se levar muito a sério…