Se isto é um homem, de Primo Levi | conversa com Irene Pimentel
dia 21/06/2017

Tivemos ontem mais uma proveitosa sessão do nosso ciclo ‘O que É que Tem o Sete que É Diferente dos Outros’, um conjunto de eventos em que, ao longo deste ano, assinalamos diversas efemérides redondas. Desta vez, a discussão centrou-se nos 70 anos da publicação da obra fundamental do italiano Primo Levi, Se Isto É um Homem. Para lançar a discussão, convidámos a historiadora Irene Pimentel (IP).

De origem judaica e formado em química, Primo Levi juntou-se a um grupo de resistência que se organizou contra o pequeno estado fascista italo-alemão que se formou no Norte de Itália em 1943 e que ficou conhecido como República Social Italiana. Acabaria por ser preso por uma milícia fascista e levado, já em 1944, para o Campo de Auschwitz, de onde seria libertado pouco menos de um ano depois pelo Exército Vermelho. Se Isto É um Homem é uma descrição dessa passagem pelo Campo. O livro seria publicado apenas em 1947, numa tiragem de 2000 exemplares, por uma pequena editora, depois de ser rejeitado pela Einaudi, grande editora de Turim ligada ao Partido Comunista Italiano. Só a partir de 1958, quando a Einaudi decidiu publicar o livro, numa reedição revista e aumentada, é que a obra ganhou a visibilidade que merece e que a torna uma das obras fundamentais da literatura do século XX.

Depois de um conjunto de referências biográficas sobre o autor, IP lançou várias questões que se prendem com o modo como, retrospectivamente, podemos olhar para o fenómeno do nazismo, em torno das quais girou depois a discussão. Desde logo, a validade do conceito de totalitarismo, designadamente no modo como foi desenvolvido por Hannah Arendt, e de que o Campo é o paradigma mais acabado. Por outro lado, a forma como a singularidade do nazismo o torna um fenómeno ainda hoje não totalmente compreensível para a abordagem historiográfica. A questão mais debatida acabou, porém, por ser a relação entre o poder nazi e as suas vítimas, as condições para a resistência ou as ambiguidades e divisões que o próprio nazismo fomentava entre os prisioneiros. A complexidade destas questões, bem como a impossibilidade de as tornar entendíveis, terá levado o próprio Primo Levi ao suicídio quando tinha 67 anos. Pouco tempo antes, perante a dificuldade de explicar às gerações mais novas todas as dimensões da sua experiência em Auschwitz, Primo Levi terá dito que «já não estou aqui a fazer nada». Elie Wiesel, outro escritor sobrevivente dos campos nazis, afirmou na altura que Primo Levi «morreu em Aushwitz há quarenta anos».