Três Carteios de Agostinho da Silva
dia 20/06/2017 | 0 Comentários

Para o estudo de uma figura como Agostinho da Silva, que trocou intensamente correspondência com inúmeras pessoas ao longo da sua extensa vida, o conhecimento da sua produção epistolar revela-se absolutamente fundamental. A troca de cartas dá conta não só da evolução do pensamento e das preocupações de quem as escreve, como nos fornece pistas para a compreensão do contexto e do léxico de um determinado período. Isso mesmo sublinharam Filipe D. Santos (FDS), Rui Lopo (RL) e Eleonor Castilho (EC), que nos vieram dar conta da investigação que têm feito sobre três carteios de Agostinho da Silva, respectivamente com Delfim Santos, António Telmo e Cecília Correia. Por se tratar de trocas de cartas em períodos muito diferentes da vida de Agostinho da Silva – o primeiro entre 1928 e 1944, o segundo entre 1968 e 1970 e o terceiro entre 1975 e 1993 –, o olhar sobre cada uma delas possibilita-nos encontrar um Agostinho da Silva também ele muito diferente, que no tom, nas preocupações ou no modo de olhar o mundo. Como Agostinho da Silva não tinha o hábito de guardar as cartas que recebia, destes carteios só existem as cartas que ele enviou.

No primeiro caso, com Delfim Santos, trata-se de correspondência trocada entre dois colegas de universidade, na Faculdade de Ciências do Porto. O conteúdo das cartas centra-se sobretudo nas preocupações que tinham sobre o contexto académico em que viviam. A Faculdade de Letras do Porto era um polo de desenvolvimento do pensamento, nomeadamente no campo filosófico e literário, muito marcado pelos pensadores contemporâneos cujos ecos chegavam sobretudo de França e da Alemanha. Era, por isso, um espaço que confrontava o establishment académico, mais conservador, de Lisboa, mas sobretudo de Coimbra, tendo mesmo depois acabado por ser encerrada. O conteúdo das cartas dá conta desse ambiente, mas também da necessidade de muitos estudantes – incluindo Agostinho e Delfim Santos – de saírem para o estrangeiro para prosseguirem os seus estudos, coisa que veio a acontecer com os dois.

Já a troca de cartas com António Telmo é de um período em que Agostinho da Silva tinha sido já forçado a abandonar o país – no seguimento das suas divergências com o Estado Novo, que o levaram à prisão e à tortura – em direcção a diversos países da América do Sul, sobretudo o Brasil, onde viveu muitos anos. Nessa passagem pelo Brasil, Agostinho da Silva alterou profundamente a sua vida, tornando-se, num primeiro momento, biólogo e trabalhando no plano da investigação académica em múltiplas cidades e universidades. Teve oportunidade de contactar com muitos intelectuais brasileiros, de outros países da América do Sul, mas também de Portugal. A correspondência com António Telmo reflecte justamente esse envolvimento profundo na evolução do seu pensamento, mas igualmente do contexto em que se moviam os intelectuais da época.

Por fim, a troca de correspondência com Cecília Correia é de uma natureza bastante diferente. Escritas já depois do regresso de Agostinho a Portugal e da sua reforma – ainda que continuasse, até ao final da vida, a trabalhar intensamente –, estas cartas revelam um tom muito mais intimista e pessoal. A sua relação de amizade com Cecília Correia durou quase 20 anos. Além dos encontros frequentes – geralmente às quartas-feiras – trocavam correspondência intensamente. Este carteio é composto por mais de 400 cartas, sendo o mais extenso até agora conhecido.