Pensar Lisboa | Debate sobre mobilidade e espaço público
dia 05/06/2017 | 0 Comentários

No âmbito do ciclo de debates “Pensar Lisboa”, organizado pela nossa livraria, realizámos um encontro sobre mobilidade e espaço público.

O tema é complexo e abrangente, interligando-se com várias outras áreas e políticas da cidade, pelo que, naturalmente, não foi um debate conclusivo, tendo-se no entanto aprofundado a temática da circulação e estacionamento do automóvel particular na cidade, que é uma das questões centrais quando se fala de mobilidade.

Ao contrário do que quase sempre nos dizem que será o “senso comum”, pareceu haver entre os participantes nesta conversa – convidados da mesa e público – consciência de que o excesso de automóveis na cidade, e a subsequente poluição sonora e atmosférica, é um problema grave que não se resolve com mais espaço para carros circularem e estacionarem, em detrimento do espaço para peões, transportes públicos, zonas verdes e de lazer, etc.

Em relação ao estacionamento, por exemplo, Fábio de Sousa, presidente da Junta de Freguesia de Carnide, que protagonizou o movimento contra os parquímetros no centro histórico do seu bairro, explicou que não era contra o controle público do estacionamento por parte da EMEL, apenas reivindicando o envolvimento e a participação das pessoas nas tomadas de decisão, de forma a encontrar as melhores soluções para as especificidades de cada caso, coisa que pareceu não acontecer nesta situação em Carnide.

Luís Carvalho é director executivo da Reitoria da Universidade de Lisboa e assistiu da janela do seu gabinete à transformação que teve a Alameda da Cidade Universitária nos últimos anos e de como o desenho do espaço público e o controlo e tarifação do estacionamento dos automóveis privados contribuíram para que aquela zona se tornasse muito mais confortável e eficiente para todos aqueles que ali trabalham e estudam.

Chamou a atenção para um dado significativo: em 95% do tempo de vida útil de um automóvel, ele está estacionado. Não serve para deslocações. Ainda assim, ao contrário do que poderemos pensar, a cidade tem espaço para todos estes automóveis parados. Apenas não tem espaço gratuito para todos os automóveis que queiram estacionar num determinado período do dia num determinado local.

Com a reorganização do espaço público na Cidade Universitária, milhares de proprietários de carro próprio tomaram as suas decisões: estacionaram mais longe, estiveram menos tempo estacionados ali, porque agora se paga, passaram a partilhar carro, passaram a vir de transportes públicos… o que é certo é que houve transformações.

Luís Carvalho pensa que é necessário ir muito mais longe. Desde mudar a dimensão dos automóveis que circulam na cidade, à maior taxação dos automóveis privados, passando pela promoção de modelos de car-sharing.

Luís Carvalho acredita que a alteração do paradigma de mobilidade nas cidades será o grande debate do futuro e dinamizará novos sectores da economia neste século.

Pedro Homem de Gouveia, coordenador na CML do Plano de Acessibilidade Pedonal da cidade, chamou a atenção para que, mais do que a “mobilidade”, devíamos preocupar-nos com o conceito de “acessibilidade” e de “igualdade de oportunidades” no acesso de todos ao trabalho, à escola, ao jardim, ao comércio e serviços.

Não falou apenas dos passeios congestionados, que impedem a circulação de deficientes e carrinhos de bebés, mas chamou a atenção para o facto de que quem está muitas vezes nas paragens de autocarro são pessoas sem alternativa para se deslocarem: pobres, idosos, estudantes, etc., e que também há muita gente sem liberdade para deixar de usar o carro no seu dia-a-dia.

Defendeu o investimento público nos transportes colectivos, em detrimento dos transportes privados, como hoje acontece, afirmando-se no entanto espantado com o facto de o debate público estar nesta altura centrado nos milhões de euros que custam uma, duas, 20 novas estações de metro, quando há investimentos menores, mais eficazes e mais fáceis de fazer, como a frequência das carreiras existentes e a reposição de carreiras que terminaram.

Homem de Gouveia disse ainda que não acredita que seja possível desenvolver o transporte público sem, ao mesmo tempo, limitar o transporte individual e sublinhou que a limitação do transporte individual, nomeadamente em termos de velocidade, vai potenciar também o desenvolvimento dos meios suaves, como a bicicleta e a pedonalidade.

A propósito, citou o presidente da Câmara de Bogotá, Enrique Peñalosa: “Um país desenvolvido não é um país em que todos podem ter carro, mas sim onde todos podem andar de transporte público”.