O som como tortura, Anabela Duarte

O som como tortura

A partir de uma conferência em Lisboa, em que participou há uns anos, Anabela Duarte (AD), investigadora do Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa, começou a interessar-se pelo recurso, e correspondentes efeitos, ao som e à música como meios de tortura. Apesar de haver já uma linha de investigação internacional sobre o tema, não havia ainda na historiografia portuguesa qualquer abordagem do género. AD começou então a investigar o caso português, nomeadamente a partir da utilização destes métodos nas prisões do Estado Novo. Uma primeira investigação preliminar gerou um artigo, publicado em 2015 na publicação académica Music & Politics. Foi para nos apresentar essas suas investigações que convidámos AD para vir à Tigre de Papel.

Uma primeira dificuldade que AD encontrou prendeu-se com os constrangimentos impostos por uma generalizada visão humanista da música, encarada como algo inerentemente positivo, obscurecendo o papel que pode ter, e em muitos casos tem tido, como meio de violência e tortura. Quando alguns casos surgem no espaço público – por exemplo, os episódios conhecidos de tortura com música sobre os prisioneiros de Abu Grahib ou em Guantánamo, ou algumas ocorrências no cinema, que AD aproveitou para nos mostrar – são remetidos para o campo do anedótico e da piada, menosprezando quer as consequências de tais práticas – seja no plano neurológico e fisiológico seja, muitas vezes, com a própria morte da vítima – quer a sua dimensão política e social e o seu valor historiográfico.

Relativamente ao caso português, trata-se de uma investigação difícil, uma vez que não há trabalhos precedentes no campo da historiografia. AD recorreu a alguns testemunhos de vítimas ainda vivas e trabalhou sobre muitas fontes escritas. Concluiu que métodos ligados de uma forma ou outra ao som começaram a ser usados pela polícia política portuguesa desde pelo menos os anos 1950. Desde o recurso a equipamento electrónico para emissão sonora a meios de vigilância, dentro e fora das prisões. Deu como exemplos a instalação dissimulada de gravadores em espaços da prisão como o parlatório, mas também a utilização, no caso do Aljube, do apito como o marcador dos tempos do quotidiano na prisão, tal como já ocorria com os carrilhões no Tarrafal ou com métodos semelhantes no campos de concentração nazis. Deu também conta de acções de formação que agentes da PIDE tiveram, logo a partir dos anos 1950, em centros da CIA, nos Estados Unidos, onde obtinham conhecimentos sobre métodos de tortura e sobre a utilização de equipamento electrónico (que começou, também nessa altura, a ser adquirido pela polícia portuguesa).

Tivemos, por fim, oportunidade de conversar sobre a continuidade futura destas investigações, bem como as dificuldades que se apresentam, pela ausência de uma sistematização do tema. Outras intervenções centraram-se em aspectos específicos do papel do som na vida quotidiana contemporânea, bem como nas implicações da sua invisibilidade, ou ainda na reacção de artistas cujas obras são utilizadas em episódios de tortura.