Os Monociclistas de António Ladeira

Os Monociclistas

No âmbito do lançamento do livro de contos Os Monociclistas, tivemos connosco António Ladeira, o autor, para apresentar a sua obra juntamente com o editor e com Rui Lopo, investigador, tradutor e membro da Comissão de Programação da Tigre de Papel.

Rui Lopo gosto muito do livro, afirmando que qualquer um dos contos daria um excelente argumento para uma série televisiva de sucesso, na senda do Black Mirror.

Na opinião de Rui Lopo, este livro trata-se de uma grande homenagem à literatura de ficção científica, nomeadamente a uma tradição distópica, presente em obras como O Admirável Mundo Novo ou 1984.

Cada história é desenvolvida em torno de uma determinado gadget ou tecnologia, hoje comummente usada na vida quotidiana, mas em que o autor, exagera, parodia, antevendo o desenvolvimento que essa tecnologia terá no futuro, caricaturando talvez, mas sobretudo, fazendo um sério aviso acerca da possível perversidade da tal desenvolvimento.

Ao mesmo que navega entre a comicidade, a crítica e um certo didactismo, o narrador tem uma postura absolutamente desapaixonada e simples. Conta a história de forma sintética, quase ingénua, sem contextualização histórica, de paisagem, de território… deixando o leitor desarmado, lançado num mundo que “é assim”: sem alternativa, sem possibilidade de escolha ou de voltar atrás. A “opressão perfeita”.

António Ladeira viveu até aos 22 anos em Portugal e nos anos 90 foi viver para os EUA. Sem estar a contar com isso, porque todos nós já tivemos através do cinema e da televisão muito contacto com aquele país, ficou chocado com a realidade que encontrou e crê que nunca teria tido inspiração para escrever este livro se nunca tivesse ido para os EUA ou se tivesse já nascido naquela sociedade que considera opressiva.
Por exemplo, o conto “O Contrato”, reflecte no fundo sobre o Serviço Nacional de Saúde que, como sabemos, nos EUA é inexistente, estando os cidadãos dependentes de seguros de saúde privados com toda a panóplia de perversões que daí derivam.

Em relação ao paralelismo com o Black Mirror, afirmou que não conhece a série televisiva mas acha normal que possa haver comparações e ligações a outras obras: “O livro debruça-se sobre temas actuais. Estas ideias andam por aí e há muita gente a pensar que há qualquer coisa de errado ou de estranho na forma como estamos a conseguir lidar com o acelerado desenvolvimento tecnológico”.