Quantas noites há nas Mil e Uma Noites | Conversa com Hugo Maia

Quantas noites há nas Mil e Uma Noites | Conversa com Hugo Maia

Hugo Maia (HM), antropólogo, tradutor e estudioso da língua árabe, passou ontem pela Tigre de Papel para dar conta da sua empreitada de tradução de As Mil e Uma Noites para língua portuguesa, a partir dos manuscritos árabes mais antigos. O primeiro volume da tradução está já disponível, aguardando-se pelo segundo – e final –, com publicação prevista para o próximo Verão. Este primeiro volume inclui um extenso preâmbulo de HM, onde o tradutor explicita detalhadamente a sua investigação sobre a obra e o seu contexto literário e histórico, bem como sobre o seu método de trabalho. Aí, HM começa por referir que As Mil e Uma Noites são simultaneamente umas das mais conhecidas obras da literatura mundial, mas também uma das mais desconhecidas. Foi precisamente sobre as suas investigações que HG nos veio falar.

HM começou por uma contextualização histórica das edições impressas de As Mil e Uma Noites, processo através do qual as versões que conhecemos se tornaram canónicas, mesmo no contexto do mundo de língua árabe. Nesse processo teve especial relevância a publicação da obra, no início do século XVIII, pelo orientalista francês Antoine Galland. Ainda que o ponto de partida dessa tradução tenha sido o manuscrito árabe mais antigo que se conhece, Galland alterou profundamente o texto, adoptando um tom moralista para as suas partes mais impudicas, e incluiu histórias que não constavam nas versões manuscritas. A partir dessa primeira edição de Galland, muitas outras foram surgindo, mesmo com forjamento de manuscritos, mas sempre mantendo a matriz orientalista.

As Mil e Uma Noites – que, na verdade, serão muito menos do que 1001 – dos manuscritos mais antigos são, por isso, muito menos conhecidas do que se pensa. Com efeito, essas histórias resultam da passagem a escrito – por diversos copistas e em circunstâncias diversas – da tradição popular oral, sobretudo vulgarizada a partir do século XV por contadores de histórias em cafés, mas a sua origem perde-se pelos tempos e circunstâncias históricas.

O que HM encontrou na leitura das histórias é muito diferente do que habitualmente associamos às Mil e Uma Noites. Ao contrário do tom moralista conhecido, trata-se de histórias populares com uma forte dimensão erótica e de crítica social contra as elites. De sublinhar também o papel preponderante que é atribuído às mulheres, portadoras de força e poder.

Estamos, portanto, perante uma obra a descobrir. A tradução de HM é um excelente contributo para essa descoberta, uma vez que a sua aposta na literalidade nos permite um contacto mais próximo com a forma que estas histórias efectivamente tinham quando os manuscritos foram redigidos.