Santa Camarão, de Xavier Almeida | Debate

Santa Camarão, de Xavier Almeida | Debate

A propósito da publicação do livro Santa Camarão, de Xavier Almeida (editado pela Chili com Carne, uma das mais prolíficas editoras portuguesas de banda desenhada), tivemos ontem um encontro na Tigre de Papel sobre um tema pouco habitual na nossa programação, eventualmente até pouco provável: o boxe.

Essa improbabilidade ficou aliás bem patente no conjunto das intervenções dos participantes, que foram sempre fazendo questão de salvaguardar que pouco sabiam sobre a realidade do boxe, seja no plano histórico seja, sobretudo, na actualidade. Tornado invisível pelo modo como o desporto foi construindo as suas representações, o boxe não perdeu nunca uma certa aura de marginalidade.

Marcos Farrajota, editor da Chili com Carne, depois de fazer uma digressão por alguns exemplos da presença do boxe na história da banda desenhada, sublinhou justamente o mérito que tem o livro de Xavier Almeida de, sem pretensões historicistas, resgatar uma personagem icónica, mas obscura, do boxe português e torná-la visível. Esse resgate, porém, não pretende tornar a personagem num herói, mas sim sistematizar a sua história de vida, misturando, como é característica da banda desenhada, episódios reais com situações imaginadas.

De seguida interveio Raul Khumar, sociólogo, que começou por elogiar o livro por ser capaz de romper com a tradicional imagem do fenómeno desportivo, crescentemente centrada na promoção da emoção e muito menos no olhar distanciado e de grande plano. Fez depois uma caracterização do boxe no início do século XX (período de actividade de Santa Camarão), definindo-o como uma actividade típica de camadas da população mais desfavorecidas, dos bairros urbanos mais marginais, que invadiu, por outro lado, alguns dos espaços nobres de uma vida burguesa noturna emergente. Se por um lado, a prática do boxe estava associada à marginalidade, à violência e à transgressão, por outro, a tensão entre essa realidade e a emergência de uma burguesia urbana ávida de novas experiências, os praticantes de boxe encaravam essa actividade como uma possível forma de escapar à vida pesada e escassa de oportunidades. Com a emergência do futebol e do ciclismo como as práticas desportivas de massas hegemónicas, e também por nunca ter sido capaz de produzir uma imagem heroica de si próprio, o boxe foi perdendo visibilidade.

Por último, Xavier Almeida deu-nos uma perspectiva sobre a investigação que levou a cabo para a produção do livro e também sobre a ligação de Santa Camarão à sua terra natal, Ovar – que é igualmente a terra natal de Xavier Almeida.

Por um imprevisto de última hora, não foi possível contar com o Mestre Paulo Seco – boxista e treinador –, como estava previsto, o que acabou por limitar um pouco uma presença mais informada sobre a realidade actual do boxe em Portugal.