Sombras. A Desordem Financeira na Era da Globalização | Conversa com Francisco Louçã

Sombras. A Desordem Financeira na Era da Globalização | Conversa com Francisco Louçã

Recebemos ontem, na Tigre de Papel, Francisco Louçã (FL) para uma conversa sobre o seu novo livro Sombras. A Desordem Financeira na Era da Globalização, escrita a meias com o economista norte-americano Michael Ash.

FL começou por identificar o ponto de partida para a publicação do livro, que passou por tentar responder à seguinte questão: que diferenças se verificariam entre o crise de 1929 e a de 2007/2008 para que, no primeiro caso, a resposta tenha passado por um recuo das posições liberais e, no segundo, aquelas não só não tenham recuado como se tenham reforçado. Se, na sequência do crash de 1929, se verificou, sobretudo a partir de Roosevelt, uma tendência para uma intervenção forte dos Estados para controlar os mercados, já no pós-crise financeira de 2007/2008 a intervenção dos Estados serviu sobretudo para salvar da falência os grande bancos e instituições financeiras, deixando intacta a lógica de desregulação de toda a esfera financeira.

Uma primeira resposta, para FL, prende-se com uma grande transformação que ocorreu a partir do início dos anos 1980: a liberalização dos movimentos de capitais. Esse fenómeno, nunca verificado antes na história, retirou aos Estados capacidade para controlar os capitais, determinando um crescimento exponencial e incontrolado do poder da finança no plano global. O desenvolvimento desse fenómeno permitiu o crescimento daquilo a que os autores chamam finança sombra, ou seja, todo um sistema económico paralelo, fora do controlo dos Estados, mas ao mesmo tempo intimamente ligado ao sistema bancário convencional. Nas vésperas da crise, o crédito ao sistema sombra era já maior do que era concedido ao sistema convencional – hoje, 10 anos depois, já voltou a ser de novo assim…

A investigação de FL e Michael Ash centrou-se então em tentar perceber como cresceu esse sistema sombra. Analisaram o percurso dos quadros dos grandes bancos, os partidos políticos e as suas relações com a finança, o modo como os economistas são selecionados na academia e todo um conjunto de relações que foi consolidando uma intrincada interdependência entre o poder político, o poder económico e financeiro e o sistema financeiro sombra. No fundo, trata-se de uma investigação sobre o poder hoje, o que é e como funciona.

Para FL, só regressando a uma política de controlo público dos movimentos de capitais será possível minimizar o risco da eclosão de outra crise semelhante à anterior.

Tivemos depois oportunidade de trocar impressões entre os presentes. As preocupações principais centraram-se no poder ideológico do neoliberalismo para construir modos de ver o mundo e para instituir um sentimento de culpa permanente nos cidadãos, que os faça sentir responsáveis pela crise. Esse será, porventura, outra das razões que explica que, uma década depois da eclosão da crise, o neoliberalismo mantenha, no essencial, a sua força.