
Apresentação dos livros À Margem dos Dias e À Margem das Noites, de J.-B. Pontalis
Jorge Câmara, psiquiatra e psicanalista, e Ana Vasconcelos, pedopsiquiatra e psicanalista, apresentam as duas traduções de J.-B. Pontalis — À Margem dos Dias e À Margem das Noites — recém-editadas pela Companhia das Ilhas e assinadas por Miguel Serras Pereira.
À Margem dos Dias:
Não datem esses fragmentos. Para mim, eles existem nas margens do tempo que passa, fora da cadeia do tempo. Mesmo quando evocam uma circunstância, um encontro, uma leitura do passado, essas circunstâncias, encontros e leituras são o meu presente.
Trago esses fragmentos das margens da minha memória, ela própria fragmentada e incompleta, não para o centro — ninguém tem um centro dentro de si, ou pelo menos esse centro esquivo nunca ocupa o mesmo lugar — mas para que possam vir à luz do presente vivo.
Não recuso as teorias. Prefiro navegar nas suas margens.
À Margem das Noites:
Aqui encontramos aquilo a que Victor Hugo, em Choses Vues, chamou “acontecimentos da noite”: sonhos que trazem os amigos falecidos de volta à vida, encontros que, mesmo que ocorram durante o dia, têm algo de invulgar, momentos de estranheza inquietante onde a nossa identidade vacila, ou aqueles momentos em que nos perguntamos: “O que faço eu aqui?”
A presença da morte iminente anda de mãos dadas com a atracção pela vida, com a curiosidade incansável que impulsiona a criança ansiosa por explorar o que a rodeia. A esta criança dou um nome: Alice.